Síndrome de Irlen afeta o aprendizado e pode ser confundida com outras doenças

Dificuldade no aprendizado nem sempre pode ser sinal de dislexia ou déficit de atenção. Uma “doença” ainda pouco conhecida no Brasil, e com alta prevalência (atinge cerca de 10 a 15% da população em geral), tem afetado o desempenho escolar e profissional de muitas pessoas.

Conhecida como Síndrome de Irlen, esse distúrbio neurovisual tem sintomas muito comuns a outros problemas oftalmológicos, como cansaço ou dificuldade na leitura, dor de cabeça, dificuldade na manutenção de foco, fotossensibilidade, e mal-estar e tonturas em viagens, o que dificulta o diagnóstico.

“Tem pessoas que se formaram e hoje trabalham, mas que sempre relataram um certo cansaço na leitura, mas achavam que aquilo era normal. Muitas vezes essas pessoas precisavam estudar muito para atingir o nível almejado. Já outras pessoas tem um nível mais severo da síndrome, que inclusive prejudica a fase de alfabetização. Nestes casos, textos muito complexos, com um fundo branco e lidos sob luzes artificiais, geram um grande desconforto e a pessoa começa a ter distorções de imagem. Algumas pessoas relatam movimentação das letras que pulsam, tremem, vibram, aglomeram-se ou desaparecem, impactando na compreensão”, explica o médico oftalmologista Dr. Maurício Hato, um dos poucos médicos screeners do Brasil (como é chamado o profissional que passa pela especialização para detectar pacientes com a Síndrome de Irlen e em conjunto com equipe multidisciplinar escolher a melhor forma de tratamento).

Miguel Rocha, 10 anos, morador de Paranavaí, foi diagnosticado com a síndrome no ano passado. A mãe, Luciana, foi quem percebeu a dificuldade de aprendizado do filho, que inclusive já estava tendo sua auto-estima afetada. “Quando ele estava no 3º ano eu achei que tinha alguma coisa dificultando o aprendizado. Ele não se queixava de dor, mas dizia que não conseguia. Demorava muito para copiar o que a professora escrevia no quadro. Todas as crianças já tinham ido embora e ele ainda continuava lá, muitas vezes com os olhos vermelhos. Ele passou por vários profissionais diferentes até achar o que era e foi em uma consulta com uma psicopedagoga que acabou sendo diagnosticado. Ela nos encaminhou para Belo Horizonte, que é referência no diagnóstico e tratamento”, relata a mãe.

A síndrome tem caráter genético, podendo também afetar um ou ambos os pais em graus e intensidade variáveis. O pai de Miguel, por exemplo, acabou se descobrindo portador da síndrome depois que foi filho foi diagnosticado. “Meu marido também tinha muita dificuldade de aprendizado na escola quando era criança, mas na época não havia tanta informação e recursos quanto hoje, e ele acabou deixando a escola muito cedo por conta disso”, conta Luciana.

De acordo com ela, todo o diagnóstico e tratamento foram particulares, já que o SUS ainda não cobre os atendimentos.

A identificação da síndrome é feita por profissionais da saúde e educação devidamente capacitados a identificar os portadores da síndrome, através da aplicação de um protocolo padronizado conhecido como método Irlen. No teste de screening, os profissionais utilizam transparências coloridas (lâminas) que são colocadas em cima do texto a ser lido pelo paciente. Essas lâminas conseguem filtrar determinados espectros de luz ao que a pessoa é hipersensível, ocasionando uma melhora na leitura e na qualidade de vida.

TRATAMENTO – O tratamento para a Síndrome de Irlen consiste no uso de um óculos com lentes especiais (disponível em uma grande variedade de cores que vai filtrar aquela intensidade luminosa que é prejudicial para a pessoa) ou lâminas de leitura (overlays). Todos os materiais são importados e o preço ainda é elevado. O óculos custa cerca de mil dólares.

Miguel, por exemplo, hoje faz uso de óculos com filtro na cor azul. “Hoje ele já consegue fazer leitura e escrever bem. Chegou a ficar retido um ano na escola, por causa desta dificuldade, mas agora já está tendo um bom desempenho”, conta Luciana.

O oftalmologista Maurício Hato explica que o óculos age a nível neurológico (na “ponte” existente entre olhos e cérebro) causando a chamada neuromodulação. “Esses pacientes possuem alterações a nível de fotorreceptores da retina, por isso uma pessoa acaba se adaptando melhor um filtro da cor azul, outra com o vermelho, outra com o verde, e assim por diante”, detalha.  “Muitas crianças, ao colocar os óculos, se surpreendem com a nova visão do mundo, já que elas não conheciam o que era o “normal”, que os outros enxergavam”, finaliza o médico.

Fonte: Portal da Cidade Paranavaí

Pedro L

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