Paraná é o segundo maior produtor de alimentos orgânicos do país, aponta Sistema Nacional do Ministério da Agricultura

Interesse pelo cultivo livre de resíduos químicos está em alta no estado; segundo a Secretaria Estadual de Agricultura, número de produtores aumenta a uma taxa de 20% ao ano.

O interesse pelo cultivo livre de resíduos químicos está em alta no Paraná. De acordo com a Secretaria Estadual de Agricultura e Abastecimento (SEAB), o número de produtores aumenta a uma taxa de 20% ao ano. Somente o Rio Grande do Sul possui mais produtores de orgânicos do que o Paraná no país.

Há 22 anos, informação e vontade de aprender uniram Ernestina Muraoka, agrônoma do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-Paraná) e especialista no cultivo de produtos orgânicos, e Keiko Mori, agricultura que aceitou o desafio de ir na contramão dos agrotóxicos em 1999.

Elas começaram a plantar alimentos que não usam veneno químico. Ernestina afirma que “é possível unir produtividade com qualidade num produto orgânico”.

Keiko lembra que inicialmente contava com apenas uma estufa, mas depois foi aumentando o espaço.

“Comecei com tomate italiano e depois fui para o tomatinho grape, aí aumentei para o pepino, pimentão, berinjela. Em 20 anos, eu fui aumentando aos poucos e hoje estou com 10 estufas”.

Aumentou o espaço e o faturamento, principalmente no ano passado. A agricultora conta que a pandemia fez surgir uma procura pelo produto de segunda, que antes era descartado porque não tinha interesse comercial. Com isso, faturou em torno de 30% a mais em 2021.

“Com essa pandemia, as pessoas começaram a fazer processados”, comenta.

A sobrinha de Keiko mora em Curitiba e recebe e vende 90% de toda a produção. São 8 mil quilos por mês no verão e 20 mil quilos no inverno, distribuídos em 10 produtos ao todo, que são cultivados no sítio de 33 hectares.

Apenas cinco deles são destinados aos orgânicos, mas é de onde sai a maior parte da renda. Ernestina explica que começaram “com uma produtividade abaixo da convencional, mas o produtor, quando está pronto para a produção orgânica certificada, a produtividade e a qualidade do produto são iguais ou superiores as do convencional”.

Custo

O Caminhos do Campo foi investigar como se comporta o custo da produção dos orgânicos comparado ao convencional. O produtor Juliano Pereira da Silva diz que os valores são equilibrados.

“Nos orgânicos, o maior gasto é com a mão de obra. Já no convencional, o que pesa é o gasto com agrotóxico”, explica.

Mas, para ele, a venda dos orgânicos gerou mais lucro, e o faturamento na propriedade de menos de dois hectares deu mais tranquilidade à vida no campo.

“Eu tentei trabalhar no convencional, mas não deu aquele resultado igual ao que o orgânico está dando aqui. Se não fosse este tipo de produto, eu acho que já teria abandonado o sítio porque, depois que eu entrei no orgânico, a minha situação melhorou bastante”, conta.

Silva e Keiko estão entre os 3.680 produtores paranaenses com cadastro no Sistema Nacional do Ministério da Agricultura.

Certificação

Márcio Miranda, do IDR-Paraná, explica o que é necessário para obter esta certificação.

“Não pode ter a contaminação do produto por agrotóxicos, o que envolve a construção de uma barreira no entorno da produção, porque, infelizmente, pode haver uma contaminação vinda de fora. Não pode utilizar variedades transgênicas. Não pode usar sintéticos ou químicos. Tem que ter práticas de manejo que conservem o solo. O registro dos trabalhadores rurais, depois que estiverem empregados e mais uma série de regras”, diz.

Conforme Miranda, para se obter a certificação, é necessário procurar uma certificadora, e são duas possibilidades: “ou através da certificação auditada, quando uma empresa que é credenciada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento certifica o produto, ou através o sistema participativo de garantia, onde os agricultores se reúnem e fazem uma certificação”.

Aumento da procura x preço alto

Andréa Pavan é dona de uma loja que só vende produtos orgânicos certificados. Ela conta que se surpreendeu com o aumento na procura durante estes meses de pandemia. Foi necessário até ampliar o espaço da loja para atender melhor e oferecer mais produtos.

“O aumento foi de 30 a 40% nas vendas. As pessoas estão preocupadas com o que estão consumindo e se ligaram mais nesta questão de agrotóxicos, transgênicos e até mesmo no cuidado com a saúde de quem produz estes alimentos”, comenta.

A nutricionista Rosana de Matos Dias decidiu só consumir produtos orgânicos.

“É outro sabor. Você sente mais o sabor da fruta e das verduras. É muito mais saborosa e natural. Eu já levei alface que não era orgânica para casa e minha filha percebeu pelo sabor”, revela.

Apesar da oferta aumentar ano a ano, a demanda ainda é maior e o preço dos orgânicos é mais alto. Em uma loja em Londrina, no norte do Paraná, o quilo da batata doce sai por R$ 11,90 e o da cebola R$ 12.

Jane Peralta é uma consumidora destes produtos e afirma que a durabilidade dos alimentos deve ser levada em conta na hora de calcular os custos.

“A couve-flor orgânica, por exemplo, fica muito mais preservada na geladeira. E quando a gente começa a comer, a gente vê a diferença que é na nossa vida mesmo”.